Resumo do artigo
- O que faz: a criptografia VPN embaralha o seu tráfego antes que ele saia do seu dispositivo, para que o seu provedor de internet (ISP) e qualquer pessoa na rede vejam apenas dados ilegíveis.
- Como funciona: uma troca de chaves estabelece um segredo compartilhado e, em seguida, uma criptografia simétrica rápida (AES-256 ou ChaCha20) protege o tráfego em si. Essa combinação é chamada de criptografia híbrida.
- O que procurar: WireGuard, OpenVPN ou IKEv2/IPsec. Evite por completo o PPTP e o IKEv1.
- Conclusão: tanto o AES-256 quanto o ChaCha20 são considerados praticamente inquebráveis com a tecnologia atual. O ponto fraco de uma VPN quase nunca é a cifra em si.
A criptografia VPN garante que suas atividades online sejam privadas e protegidas contra vigilância não autorizada. Ela usa funções criptográficas para embaralhar os dados e torná-los ilegíveis para terceiros.
Sempre que você navega na internet, seu provedor de serviços de internet (ISP) pode ver os sites que você visita. Se esses sites usarem o protocolo HTTP desatualizado e não criptografado, seu ISP também verá o que você faz neles.
Isso vai contra os princípios da privacidade online. Nos EUA, por exemplo, os ISPs podem coletar e vender os dados dos usuários sem consentimento. Isso é usado principalmente para publicidade direcionada, mas, de modo geral, compartilhar suas atividades online com terceiros é arriscado.
As VPNs evitam isso. Elas criptografam todos os dados antes que eles saiam do seu dispositivo. Além disso, as melhores VPNs, como NordVPN, Proton VPN e PIA, adotam políticas rigorosas de não registro de atividades (no-logs), o que significa que sua atividade de navegação não é armazenada nos servidores desses provedores.
Essas políticas são colocadas à prova de tempos em tempos. Em 2017, investigadores turcos que apuravam o assassinato do embaixador russo Andrei Karlov apreenderam um servidor da ExpressVPN. Eles não encontraram registros de atividade porque simplesmente não havia registros desse tipo. É importante deixar claro o que isso prova e o que não prova: uma política de não registro significa que não há registros do que você fez. Os provedores ainda mantêm informações de conta e faturamento, portanto, dizer que não armazenam “absolutamente nada” nunca é totalmente correto.
Então, o que é a criptografia VPN e como exatamente ela funciona?
Como funciona a criptografia VPN?
Primeiro, uma VPN cria um túnel seguro do seu dispositivo até o servidor da VPN. Ela usa criptografia assimétrica para realizar uma troca de chaves, que é a etapa que muitas explicações descrevem de forma um pouco imprecisa. Seu dispositivo e o servidor não enviam uma chave secreta um para o outro pela internet. Cada um contribui com uma parte do cálculo e ambos chegam, de forma independente, ao mesmo segredo compartilhado, sem que esse segredo passe pela rede. Se você quiser se aprofundar, leia nossa postagem sobre o que é criptografia.
Esse processo exige muitos recursos e deixaria sua conexão extremamente lenta se fosse executado continuamente. Portanto, assim que o segredo compartilhado é estabelecido, a VPN muda para a criptografia simétrica, que é muito mais rápida. Seu tráfego é criptografado e encapsulado com essa chave compartilhada e só então sai do seu dispositivo.
Junto com a criptografia, o protocolo anexa uma tag de autenticação a cada pacote (Poly1305 no WireGuard, HMAC no OpenVPN). Se um único bit for alterado durante a transmissão, a tag não corresponderá e o pacote será descartado. É assim que uma VPN verifica se os seus dados não foram adulterados, e não apenas ocultados.
Quando o tráfego chega ao servidor, a VPN o descriptografa e o encaminha para o destino pretendido. A maioria dos sites hoje usa HTTPS, que também criptografa esse segundo trecho da conexão. Assim, o trajeto entre o servidor VPN e o site também fica protegido contra vigilância não autorizada.
Após receber a sua solicitação, o site envia a resposta de volta ao servidor VPN. O servidor a criptografa novamente e a encaminha para você. Seu dispositivo a descriptografa com a chave compartilhada, concluindo o processo de criptografia da VPN.
Protocolos de criptografia VPN: OpenVPN, WireGuard e IKEv2
O algoritmo de criptografia usado por uma VPN depende do protocolo VPN, então vamos explicar isso primeiro.
Os protocolos VPN são conjuntos de regras que definem como os dados são criptografados e enviados com segurança até o destino e de volta. Suas quatro principais funções são:
- Estabelecer uma conexão segura com o servidor VPN, autenticar o servidor e negociar as chaves de criptografia;
- Criar um túnel VPN e criptografar o fluxo de dados do usuário;
- Mover esses dados com segurança do dispositivo até o destino final e vice-versa;
- Verificar se os dados não foram adulterados durante a transmissão.
Três protocolos dominam atualmente: WireGuard, OpenVPN e IKEv2/IPsec. Para uma visão mais detalhada, consulte nosso guia sobre protocolos VPN.
O OpenVPN foi o protocolo dominante por bem mais de uma década. Ele tem uma base de código grande e madura, com dezenas de milhares de linhas, e oferece suporte a uma ampla variedade de algoritmos de criptografia para troca de chaves, autenticação e para o próprio canal de dados. Essa flexibilidade é, ao mesmo tempo, um ponto forte e um ponto fraco: quanto mais opções de configuração existem, maior é a superfície a ser auditada.
O WireGuard é o padrão atual. Sua base de código é aproximadamente uma ordem de grandeza menor que a do OpenVPN, o que o torna muito mais fácil de auditar. Ele usa ChaCha20 para criptografia simétrica, que é rápido e consome poucos recursos, e não foi projetado para oferecer várias opções de configuração: as opções de cifra são fixas, portanto não há opções de cifra que possam ser configuradas incorretamente.
O IKEv2/IPsec também consome poucos recursos e, graças ao MOBIKE, lida muito bem com mudanças de rede. Ao sair de casa, seu celular pode mudar do Wi-Fi para os dados móveis sem derrubar o túnel. É por isso que ele continua sendo a escolha preferida em dispositivos móveis.
Tipos comuns de algoritmos de criptografia VPN
Os algoritmos de criptografia VPN se dividem em duas categorias.
Os algoritmos assimétricos usam um par de chaves: o que é criptografado com uma chave só pode ser descriptografado com a outra. As VPNs os utilizam no início de uma conexão para autenticar o servidor e estabelecer a chave que será usada pela criptografia simétrica.
Sua segurança não vem do pareamento das chaves em si, mas de problemas matemáticos subjacentes que são fáceis de calcular em uma direção, porém inviáveis de reverter, como a fatoração de produtos de números primos enormes. Em contrapartida, esses algoritmos são lentos e exigem muitos recursos computacionais.
Os algoritmos assimétricos mais utilizados são:
- Rivest-Shamir-Adleman (RSA), um dos mais antigos e ainda amplamente utilizado. Sua segurança se baseia na dificuldade de fatorar números muito grandes.
- Criptografia de Curva Elíptica (ECC), uma família mais moderna, que inclui o Curve25519 usado pelo WireGuard. A vantagem da ECC não está na complexidade por si só: ela oferece segurança equivalente à do RSA com chaves muito menores, o que a torna consideravelmente mais rápida.
- Mecanismo de Encapsulamento de Chaves Baseado em Reticulados Modulares (ML-KEM), o padrão pós-quântico cuja versão final foi publicada pelo NIST em 2024. Isso é importante agora, e não apenas no futuro: um adversário pode registrar o tráfego criptografado hoje e descriptografá-lo anos depois, quando houver hardware quântico capaz de fazer isso. Esse tipo de ataque é conhecido como harvest-now-decrypt-later (coletar agora, descriptografar depois). A NordVPN e a ExpressVPN já lançaram proteção pós-quântica em seus próprios protocolos exatamente por esse motivo.
A criptografia simétrica usa a mesma chave para criptografar e descriptografar. Ela é mais simples, muito mais rápida e exige muito menos capacidade de processamento. Por isso, é usada para proteger o tráfego em si depois que a conexão é estabelecida.
Os algoritmos simétricos mais utilizados são:
- Padrão de Criptografia Avançada (AES), usado por quase todas as VPNs comerciais, normalmente com uma chave de 256 bits, conhecida como AES-256.
- ChaCha20, criado pelo criptógrafo Daniel J. Bernstein em 2008 e atualmente combinado com o autenticador Poly1305 no WireGuard. Ele é especialmente rápido em dispositivos sem aceleração de hardware dedicada para AES, algo comum em boa parte dos dispositivos móveis.
O uso conjunto da criptografia assimétrica e da simétrica é chamado de criptografia híbrida: a assimétrica é usada no handshake (estabelecimento da conexão), enquanto a simétrica protege o tráfego. É essa combinação que torna uma VPN bem construída, na prática, inquebrável com a tecnologia atual.
Como escolher uma VPN com criptografia forte
Você não precisa entender profundamente de criptografia para escolher uma VPN confiável. Procure um provedor que ofereça WireGuard, OpenVPN e IKEv2/IPsec, e você estará preparado para praticamente qualquer situação de uso.
Há dois protocolos que devem ser evitados por completo. O PPTP tem décadas de existência e seu sistema de autenticação é considerado vulnerável há anos. O IKEv1 está obsoleto e foi substituído pelo IKEv2.
Outros dois exigem uma análise mais cuidadosa do que os alertas genéricos que costumam ser feitos. O L2TP não oferece criptografia por si só. Ele é um protocolo de encapsulamento (tunneling) e, por isso, normalmente aparece combinado com IPsec, como L2TP/IPsec. Essa combinação não é considerada insegura, mas já é uma solução antiga e mais lenta do que as alternativas.
O SSTP é baseado em TLS e não apresenta vulnerabilidades amplamente exploráveis conhecidas, mas é proprietário e de código fechado. Portanto, usá-lo significa confiar na implementação da Microsoft sem poder examinar seu código-fonte. Nenhum dos dois deve ser motivo de preocupação imediata se o seu provedor os oferecer, mas ambos são motivos para escolher o WireGuard quando ele estiver disponível.
Por fim, algumas VPNs usam protocolos proprietários modernos. A NordVPN desenvolveu o NordLynx, uma variante do WireGuard, enquanto a ExpressVPN usa o Lightway. Ambos são rápidos, passaram por auditorias independentes e agora incluem mecanismos de troca de chaves pós-quânticos.